Guia Prático de Criação de Religião – Parte 1

Na ficção especulativa, especialmente no gênero Fantasia, uma maneira de distinguir o seu mundo de outro é preenchê-lo com deuses de sua autoria. Worldbuilders que quiserem criar um mundo, seja de fantasia medieval ou não, precisam pensar seriamente em desenvolver a religião de seu mundo.

É claro que você pode criar uma história onde não há menção alguma aos deuses, não havendo inclusive nenhuma igreja ou culto em sua história, e ela poderá funcionar perfeitamente. No entanto, em muitos romances de fantasia, a religião é uma parte integrante da trama. Dependendo da sua ideia, nas fases iniciais você pode precisar apenas de um mínimo de detalhes sobre sua religião, mas esse mínimo será necessário.

Galáxia

Porque criar uma religião?

Adicionar o contexto religião em sua história, pode criar uma fonte de tensão entre os personagens. A guerra entre duas nações pode ter sido iniciada por conta de suas diferenças religiosas. O protagonista ou antagonista poderiam ter seus objetivos pessoais embasados em suas crenças religiosas. Mesmo profecias podem vir de escritos religiosos.

Deixando a Teologia do mundo real de lado, a menos que a sua história envolva um escopo sobre a religião sendo o ópio das massas ou a ferramenta de sacerdotes corruptos, pense em deixar claro em sua obra que os deuses deste mundo realmente existem, seja com entidades que façam (ou tenham feito no passado) presença, ou que elas estejam inseridas na história deste Universo. Isso pode servir de muitos usos para o autor 1:

  • Pode fornecer uma base para um mundo mágico funcional, especialmente em relação a clérigos, monges, paladinos e outros adeptos.
  • Promove conflito, especialmente se você tiver deuses do bem x deuses do mal ou apenas Deuses Jerkass.
  • Pode ser que o deus esteja de mãos atadas e eles precisem do herói para realizar uma missão.
  • É uma maneira interessante de mexer com a vida do personagem.
  • Dar ao protagonista da história um conveniente dispositivo raro e extremamente poderoso, como uma relíquia, que é mais forte que qualquer artefato feito por algum mago.

Há obras em que o autor decidiu não incluir deuses em sua história, ou simplesmente eles não fazem muita diferença no contexto do mundo que estão criando, como na Trilogia do Mago Negro de Trudi Canavan. Não há religiosos, a magia é responsável pelo único poder, e o Clã dos Magos é o grupo mais poderoso das Terras Aliadas. Mas esta mesma autora, também escreveu outra trilogia em que o foco é justamente a religião, em Age of the Five, uma jovem sacerdotisa chamada Auraya sobe ao posto mais alto da hierarquia religiosa de seu mundo, posteriormente descobre que os deuses que ela adora são significativamente diferentes das entidades que fora ensinada a acreditar 2.

Mas se você decidiu criar não apenas alguns deuses, mas sim todo um panteão bem organizado, sabe que terá uma tarefa hercúlea pela frente, mas não é uma tarefa impossível, e este artigo foi criado (de forma pretensiosa) especialmente para ajudá-los nessa tarefa!

Várias religiões? Ou apenas uma religião? O que é Panteão?

Monte Olimpo

Existe na literatura, em jogos e em outras mídias, mundos de fantasia com um panteão de deuses que interagem uns com os outros. Enquanto as pessoas podem seguir um deus, eles também acreditam que todos os outros existam, ou não. Imaginem um comerciante que creia firmemente num deus das viagens e do comércio acima dos outros deuses do panteão, mas ele certamente pagará promessas ao deus da fertilidade em respeito a ele quando seu filho nascer saudável ou até mesmo pedir um favor de um deus da trapaça se ele for desonesto. Devido aos domínios de um deus (da fertilidade, viagens, fraude, etc.), alguns deuses “malignos” podem ganhar alguma influência e poder de seguidores não-malignos. A personalidade e os objetivos do deus podem ser independentes dos domínios dele a partir da perspectiva das pessoas 3.

É comum que um Panteão na fantasia seja politeísta e cada deus e deusa tenha uma personificação antropomórfica 4. Ser um descrente é uma perspectiva potencialmente perigosa neste contexto 5. Espíritos, demônios e seres mágicos comuns não contam para um Panteão, mas sim vários deuses menores, semideuses e deuses. Observe que, embora o título diga “panteão”, Deuses únicos contam também.

As religiões monoteístas ou religiões sem deuses particulares não devem ser negligenciados em cenários de fantasia. Worldbuilders podem querer projetar um mundo com centenas de deuses sem considerar que uma religião pode ter apenas um único deus ou poucos deuses. Além de que, uma religião sem deuses também é plausível, poderia ser uma busca de uma ideia como a lógica ou a liberdade. Por isso, é útil enfatizar que aqui o termo “religião” é usado para qualquer religião, se ele tem um grande panteão de deuses, um deus, ou deuses ou ideologias.

religionA existência dos deuses malignos e benignos deve ser algo que faça algum sentido e não pareça muito monótono, um deus da guerra de um povo, que é ao mesmo tempo o deus do amor para este povo, não é muito fácil de se engolir, mas é possível ser feito, mas geralmente os adeptos seguem aspectos bem específicos de um deus, sendo assim, tenha cuidado ao escolher em que áreas aquele determinado deus realmente atua. Nada disso significa que todos os deuses devem de fato serem seres poderosos e reais, muitos falsos cultos podem existir no seu panteão, pois eles acabam criando toda uma cultura e religiosidade diversificada e colorida para o seu mundo. Imagine um culto profano que usa parte da mensagem de um deus real e bondoso? Criando uma crise secular sem precedentes? Em nenhum dos toques acima fala sobre esta convenção da fantasia: o seita demoníaca.  Onde um demônio ou diabo está tentando romper uma barreira mágica/divina para devorar mortais e destruir a criação. Normalmente, esta entidade está corrompendo um feiticeiro com promessas de poder em troca de ajuda para quebrar a barreira. E, claro, para isso, sacrifícios virginais são quase sempre necessários.

World Builder's GuidebookDito isto, existem várias maneiras de lidar com o seu mundo tendo várias religiões (estas classificações vêm do excelente World Builder’s Guidebook por Richard Baker, pág 85 6):

  • Universal: O mundo tem uma religião. Embora diferentes culturas podem enfatizar um deus ou aspecto da religião mais do que outro, todos em geral acreditam existir os mesmos deuses ou verdades religiosas.
  • Sobreposição: A mesma religião de base existe em todo o mundo. No entanto, diferentes culturas e grupos podem se referir aos deuses por nomes diferentes, têm diferentes abordagens para alcançar o mesmo verdade religiosa, ou terem um poucas histórias diferentes sobre os deuses.
  • Contato: Cada cultura pode ter sua própria religião(s) e todas essas religiões realmente existem neste mundo. Os deuses de uma cultura sabem sobre os deuses das outras culturas. Eles podem até mesmo ajudar ou entrar em conflito uns com os outros. Geralmente cada conjunto de deuses tem o seu lugar (Asgard, o Monte Olimpo, o Abismo, etc.) na cosmologia/planos do universo desta ambientação.
  • Sem Contato: Cada cultura pode ter sua própria religião(s), mas divindades de religiões diferentes não conhecem umas as outras. Os mortais podem desempenhar um papel aqui na resolução dos conflitos entre as religiões, como cada religião tenta ter mais influência do que as outras.

Bastão transformado em serpente

Um problema com múltiplas religiões na fantasia é como as pessoas podem lidar com várias religiões concorrentes quando os sacerdotes de cada religião tentam provar a existência da religião através de uma cura simples feitiço? Há um par de maneiras de lidar com isto:

  • Em alguns casos, as pessoas vão desacreditar tudo o que viu e dizer que foi encenado.
  • Fiéis de uma religião poderão simular o mesmo milagre de forma mais grandiosa, e dizer que aquilo que você fez foi apenas um truque barato de seu deus fajuto.
  • Outros descrentes afirmam que há algumas ervas ou outros truques que poderiam ter sido usadas para simular o poder divino.
  • E em outros casos, as pessoas podem alegar que o deus em questão é simplesmente um dos deuses dessa pessoa com um nome diferente.
  • A maioria das pessoas não viajam para outras regiões para que eles não fiquem expostos a outras religiões.

Profeta Elias - Fogo no Altar

Conflitos religiosos podem ser o foco principal da trama, através de guerras ativas ou podem estar em segundo plano, onde religiões estão tentando se influenciar mutuamente. Os conflitos podem ser uma combinação destes e há várias culturas no seu mundo, e as religiões são compatíveis umas com as outras. Se um conflito violento é desejado, essas religiões devem variar em alguns aspectos proeminentes ou tem alguma outra causa significativa para haver o conflito.

Estas são apenas algumas questões para você pensar. Agora, como você realmente criará sua religião, é preciso certificar-se de conhecer bem o suficiente para misturar esses ingredientes e que isso contribua para a sua história.

Em breve a parte dois!

Cite this article:
Lagame C (2015-06-29 14:46:35). Guia Prático de Criação de Religião - Parte 1. Criação de Mundos. Retrieved: Jun 22, 2018, from https://www.criacaodemundos.com.br/guia-pratico-de-criacao-de-religiao-parte-um/
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Notes:

  1. https://allthetropes.orain.org/wiki/Fantasy_Pantheon
  2. http://www.editoranovoconceito.com.br/livros/trilogia-do-mago-negro/
  3. http://inkwellideas.com/worldbuilding/worldbuilding-religion-design/
  4. http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/AnthropomorphicPersonification
  5. https://allthetropes.orain.org/wiki/Flat_Earth_Atheist
  6. http://www.amazon.co.uk/World-Builders-Guide-Richard-Baker/dp/0786904348
Cristiano Lagame
Cristiano Lagame formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Universidade Carioca do Rio de Janeiro em 2013. É Carioca, mas viveu na cidade de Teresópolis por sete anos, onde trabalhou como Técnico de Manutenção de Micros, Webdesigner e Programador. Depois retornou para o Rio, onde começou seus estudos para tornar-se Analista de Sistemas, profissão que permanece até o momento.

Está entre um dos incitadores do hobbie RPG no Rio de Janeiro e no Brasil. É criador e moderador de diversos grupos deste hobbie lúdico.

Foi em 1989 que teve contato pela primeira vez com o RPG, e mantendo até hoje o hábito de jogar com seus amigos e parentes ao menos uma vez ao mês de forma saudosa.

Junto com outros membros mantinha o site Spell RPG, um dos primeiros sites deste hobbie. Em 2015 entrou no curso de extensão de Game Design pela Infnet/Pix Studios, foi o que o motivou a criar o site Criação de Mundos.