Guia Prático de Criação de Religião – Parte 3

Esta é a terceira parte do projeto do guia prático sobre criação de religião na fantasia. Não deixem de ler a primeira e segunda parte deste guia!

Temos que ter sempre em mente que as religiões tendem a evoluir, novas tradições aparecem, novos homens santos são adicionados ao cânon e assim por diante, a estagnação da religião é tão irrealista como em Medieval Stasis.

Annunaki (Gods)

Aqui estão algumas perguntas para você pensar:

1.) Será que o deus ou deuses criaram o mundo? Se não, como ele veio a ser criado? Se eles o criaram, por que eles fazem isso?

2.) Será que os deuses vivem no meio do povo? Se assim for, eles assumem um papel ativo com aqueles que os adoram?

3.) Há vários deuses e se assim for, há uma hierarquia entre eles? As pessoas adoram todos os deuses ou eles escolheram apenas um?

4.) Eles são bons ou maus, ou isso é sem sentido quando se fala de deuses?

5.) Há tensão ou rivalidade entre os deuses? Isso afeta a política da igreja?

6.) Como a religião visualiza os não-crentes? E os Não-humanos? Existe uma igreja do estado? Existe liberdade de religião?

7.) Que costumes cercam um nascimento ou uma morte? Quais seriam seus rituais ou celebrações relativas? Como as pessoas lidam com esses eventos?

8.) Será que os deuses se importam como as pessoas se comportam? Será que eles se envolvem na vida diária de seus adoradores? De que forma essa presença é notada?

9.) Que papel a religião desempenha na vida pública e privada? Que ritos ou rituais devem ser pré-formados? Como é que as pessoas consideram os templos e igrejas? São lugares de refúgio e esperança? E quanto aos sacerdotes ou outros líderes religiosos?

10.) Um sacerdote trabalha nesta posição em tempo integral ou eles precisam de outros trabalhos? Se é uma posição de tempo integral, quem lhes serve de suporte? – um patrono rico, a congregação, os deuses lhe mantém?

11.) Será que os deuses têm limites para o que eles podem fazer? Existem coisas que eles não vão fazer? Podem os deuses cometem erros? Que tipo de erros seriam possíveis e mais comuns?

12.) Como adoradores consideram má sorte ou coisas ruins acontecendo com eles? Há alguma punição por alguma transgressão? Há algo que os deuses não permitem ou desaconselham a ser feito?

13.) Uma pessoa pode se tornar um deus? Ou ser considerada um deus? O que é preciso para isso?

14.) Quais são os dogmas destas religiões?

15.) Estes dogmas mudaram com o tempo? Como foi esse processo?

Essas perguntas ajudarão bastante nesta tarefa de criação de uma ou mais religiões, mas não são as únicas questões que você deverá ter em mente se quiser criar algo realmente interessante, afinal, o que os deuses fazem por seus seguidores?

Poderes concedidos pelos deuses

Uma conseqüência de se incluir religião numa história é que muitos clérigos, sacerdotes ou outros seguidores deste deus necessariamente terão algum tipo de competências ou habilidades específicas concedidas por seus deuses, algo mágico ou sobrenatural, isso nem sempre é assim.

Este não é o melhor ponto de partida para a concepção de uma religião ou de uma profissão sacerdotal, porque se baseia em muitas suposições emprestadas sobre a natureza destas coisas. A “magia clerical” ou  milagre é algo a ser pensado, e não pode vir com viés cultural inquestionável.

Na Trilogia das Crônicas de Dragonlance essa questão foi explorada de forma bastante interessante. Segue  um trecho desta história:

Após o segundo Cataclisma enviado pelos deuses, os milagres que antes eram comuns, como a Cura, passaram a não existir mais, não havia Cura verdadeira, somente haviam charlatões nesse período de silêncio dos deuses, mas existia uma mulher, chamada Lua Dourada que era a filha do chefe das Tribos Bárbaras das Planícies da Poeira. E durante uma viagem junto com Vendaval, um bárbaro da tribo Que-shu que acreditava nos antigos deuses de Krynn, pois seu avó nunca esquecera os velhos costumes de adoração aos deuses, viajaram juntos à um local sagrado para os Que-shu, um antigo templo abandonado de Mishakal, pela primeira vez Lua Dourada teve contato com o que viria a ser a força de sua vida: Os deuses verdadeiros. Sua mãe falecida apareceu como um espírito e falou da importância dos deuses antigos no mundo. E enviou Lua Dourada de volta para as tribos para que junto com Vendaval, eles pudessem fazer com que os bárbaros estivessem preparados para a volta dos deuses. Infelizmente os bárbaros da tribo debocharam de Vendaval e além disso o pai de Lua Dourada não permitiu que sua filha fosse desposada por um pastor herege. Então, ele enviou Vendaval numa missão impossível: Encontrar alguma prova de que esses deuses antigos realmente existem. Passou por inúmeras provações, mas com o amor por Lua Dourada no coração, ele procurou por todos cantos da Abansinia, até encontrar em Xak Tsaroth um templo abandonado de Mishakal, a dama da cura, onde recebeu da deusa o cajado de cristal azul. Porém, ali também Vendaval encontrou pela primeira vez os draconianos e estas lembranças negras nunca sairiam de sua cabeça. Então ele fez de tudo para voltar para seu povo e, quando chegou lá foi mais uma vez humilhado por que o cajado não fazia milagre algum que comprovasse sua história. O povo bárbaro se juntou em volta do bárbaro e começou a apedrejar o herege. Lua Dourada vendo seu amor morrer, correu para seus braços. Neste momento o cajado que parecia um simples cajado de madeira se transformou em cristal azul e emitiu um grande clarão.

Acredito que esse trecho da história desta ambientação criada por Laura e Tracy Hickman, e ampliado por Tracy Hickman e Margaret Weis, é um ótimo exemplo de como uma boa história pode ser construída, tendo os deuses como base para impulsionar a narrativa.

lua dourada e vendaval

Sempre que for necessário, irei trazer mais informações sobre como criar uma religião, ou um panteão inteiro, e expandir mais essas questões filosóficas, mas por hora é isso!

Espero que tenham gostado!

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Lagame C (2015-07-01 10:15:26). Guia Prático de Criação de Religião - Parte 3. Criação de Mundos. Retrieved: Aug 14, 2018, from https://www.criacaodemundos.com.br/guia-pratico-de-criacao-de-religiao-parte-3/
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Cristiano Lagame
Cristiano Lagame formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Universidade Carioca do Rio de Janeiro em 2013. É Carioca, mas viveu na cidade de Teresópolis por sete anos, onde trabalhou como Técnico de Manutenção de Micros, Webdesigner e Programador. Depois retornou para o Rio, onde começou seus estudos para tornar-se Analista de Sistemas, profissão que permanece até o momento.

Está entre um dos incitadores do hobbie RPG no Rio de Janeiro e no Brasil. É criador e moderador de diversos grupos deste hobbie lúdico.

Foi em 1989 que teve contato pela primeira vez com o RPG, e mantendo até hoje o hábito de jogar com seus amigos e parentes ao menos uma vez ao mês de forma saudosa.

Junto com outros membros mantinha o site Spell RPG, um dos primeiros sites deste hobbie. Em 2015 entrou no curso de extensão de Game Design pela Infnet/Pix Studios, foi o que o motivou a criar o site Criação de Mundos.