Feudalismo nos Mundos de Fantasia

Mundos de Fantasia como as Crônicas de Gelo e Fogo são conhecidos não apenas por evocar as armadilhas do feudalismo, com reis, tortura e julgamento por combate, mas a própria crise do feudalismo. E foi na época do feudalismo que vimos as maiores barbáries.

Na moderna fantasia científica há sempre uma crise do sistema, tanto da ordem econômica como das auras de poder, a magia antes poderosa, agora falha. Há, na teoria literária até mesmo um termo técnico para esta crise: “thinning“ (diluição). Na sua Encyclopaedia of Fantasy, John Clute e John Grant definem “thinning” como “a ameaça constante de declínio”, acompanhado de um luto omnipresente e sentido de injustiça no mundo. A perda gradual ou decadência de magia ou vitalidade, como quando os elfos partem da Terra-média em O Senhor dos Anéis. Em muitos romances de Tim Powers, habitantes do século 20 podem trabalhar com magia, mas não tão facilmente como poderia ser feito em séculos anteriores.

Mas vamos nos voltar para a economia do sistema financeiro empregado nos mundos de fantasia, para torná-lo mais verossímil é preciso pesquisar. Pretendemos aqui trazer informações que possam ajudar nosso caro worldbuilder nessa tarefa.

Vamos ao exemplo de Westeros, há claramente uma desgraça sistêmica pairando sobre sua economia. A dominante família Lannister obteve sua riqueza possuindo a maior parte das minas de ouro. A moeda de Westeros é trimetálica: há moedas de ouro, prata e cobre, sendo que o seu valor varia conforme o metal que contêm – e não depende de um banco central e da sua “promessa de pagar” como na vida real.

Braavos

O problema é que, o mais importante dos Lannisters, Tywin, soltou uma bomba: as minas de ouro não produzem há três anos. Adicionalmente, os Lannister devem uma tonelada de dinheiro para o Banco de Ferro de Bravos. “Todos nós vivemos na sua sombra”, diz Tywin, “mas nenhum de nós sabe disso. Não podemos fugir deles, não podemos enganá-los e não podemos influenciá-los com desculpas. Se lhes devemos dinheiro, e não queremos ser destruídos, paguemos-lhes”.

Em Westeros, todas as Cidades Livres possuem bancos próprios. O Banco de Ferro é mais rico e mais poderoso do que todos os reinos juntos e possui uma reputação assustadora quando o assunto é cobrar dívidas. Quando príncipes ou reis faltam com seus pagamentos ou são tolos o suficiente para não honrar contratos com o Banco de Ferro, a instituição apóia e patrocina para que apareçam novos príncipes e reis. Essas novas figuras receberão todo o suporte do Banco para que tomem o lugar dos governantes que faltaram com seus compromissos, embora também adquiram dívidas no processo.

moedas

Não é a toa que isto pode te fazer lembrar da Grécia e o Banco Central Europeu, esta crise atual replica a mudança de poder essencial que aconteceu no final do feudalismo: Dívidas acumuladas no âmbito de um sistema de clientelismo corrupto, cujas fontes de riqueza secou, destruíram o sistema no final. Então este é um bom exemplo de uso de economia em mundos de fantasia, pois ele faz todo o sentido, e remete à algo que já nos é conhecido. Está aí a verossimilhança que precisamos alcançar.

Um servo camponês trabalhando com arado no campo das terras de seu senhor.
Um servo camponês trabalhando com arado no campo das terras de seu senhor.

É muito comum em algumas literaturas, e até mesmo em games e também em alguns RPGs vermos que pessoas ou criaturas carregando dezenas de peças de ouro, prata ou cobre. Afinal, essa é uma das principais maneiras de recompensar esses aventureiros por suas empreitadas, com ouro, muito ouro. E eles precisam dessas, e de outras recompensas, do contrário, por qual motivo estariam se aventurando?

Mas vamos parar um pouquinho para pensar…

Façamos as seguintes perguntas:

Como estamos apresentando esses tesouros?

Será que não estamos exagerando na quantidade de recompensas?

A Economia da ambientação que estou criando está realmente fazendo sentido?

Estamos falando de jogos que se passam num mundo medieval fantástico, com uma tecnologia, sociedade e economia, que, teoricamente, seriam medievais, não é mesmo?

Assim, devemos pensar em que escala são usadas moedas de metais preciosos nestes mundos, como elas são produzidas, em que quantidade, quem as produz e como as pessoas ou mesmo criaturas conseguiram acumular tantas delas. Vamos relembrar um pouco de história…

História

Um pouco antes da Época Feudal, na Antiguidade o gado era um elemento constante da permuta, isto é, a troca de um item por outro, e, evidentemente, o mais velho método de transação comercial.

Indicativo disso é que a palavra latina para dinheiro (pecunia) deriva de pecus, que significa “gado”. Todavia, gado e mantimentos nem sempre eram meios convenientes de troca. Portanto, vieram a ser usados metais, como o ouro e a prata. Metais preciosos serviam de dinheiro. Mas não se tratava de moeda-padrão, cunhada. Consistia em prata e em ouro, sem dúvida moldados por conveniência no feitio de lingotes, argolas, pulseiras ou outras formas convencionais, com um peso específico. O termo hebraico costumeiro traduzido “dinheiro” significa literalmente “prata”. Frequentemente, os objetos de metal eram pesados na hora do pagamento pelas pessoas envolvidas.

O Poder Aquisitivo na AntiguidadePeríodo Final da Época Feudal: Cunhagem de Moedas

Os valores modernos atribuídos ao dinheiro antigo não dão uma ideia exata do seu valor. Porém, podemos pesquisar alguns indícios do poder aquisitivo dos povos antigos, e isto é útil para se entender seus valores. Por volta do século I, os trabalhadores agrícolas recebiam em geral um pagamento em prata por um dia de trabalho de 12 horas. Pode-se presumir que neste período os salários eram mais ou menos os mesmos.

Neste caso, um siclo de prata era equivalente ao salário de três dias. Calculado em valores atuais, com base na média de uns 45 pesos inscritos de siclo, o siclo pode ser avaliado em 11,4 g de prata. Logo um siclo de prata valeria US$2,20, e um siclo de ouro, US$128,45.

Nesta época, o preço de um escravo era de 30 siclos de prata (talvez o salário de 90 dias de um trabalhador comum). Uma mulher podia ser comprada por 15 peças de prata e um ômer e meio (15 efas) de cevada. Provavelmente, este pagamento constituía o preço integral de um escravo. Neste caso, um efa (22 l) de cevada valia em torno de um siclo de prata.

Mordendo ouro

O siclo muitas vezes é mencionado em relação com prata ou ouro. Antes de se usarem moedas, empregavam-se peças de prata (e, menos frequentemente, de ouro) como dinheiro, verificando-se o peso na hora da transação. Então convém levarmos isso em conta em nossa ambientação, sabe aquele momento em que você vai num mercador de jóias, e ele verifica se a sua moeda de ouro é verdadeira ou não, mordendo a moeda, ou mesmo pesando-a? Então, isso era realmente importante, e mostrar isso em sua história será bastante interessante.

O Feudalismo Medieval Europeu

“Feudo” é sinônimo de “benefício”. Significa um bem ou direito cedido a alguém em troca de fidelidade e várias obrigações, em especial militares. Aquele que cede o bem se torna suserano do que recebe e que passa a ser seu vassalo. Recebendo a terra, o vassalo passava a contar com um meio seguro de subsistência (já que viveria da renda e do trabalho do camponês), podendo dedicar-se inteiramente ao treinamento e serviço militar. Formou-se assim uma camada de grandes proprietários, ligados uns aos outros por laços de suserania e vassalagem e que, exploravam o trabalho do camponês, fosse este livre (vilão) ou semi-livre (servo).

Feudo

Sabemos que o feudalismo tem suas origens no século IV a partir das invasões germânicas (bárbaras) ao Império Romano do Ocidente (Europa). Com a decadência e a destruição do Império Romano do Ocidente, por volta do século V d.C. (Fim da antiguidade 476 d.C.), em decorrência das inúmeras invasões dos povos bárbaros e das péssimas políticas econômicas dos imperadores romanos, várias regiões da Europa passaram a apresentar baixa densidade populacional e ínfimo desenvolvimento urbano. Favorecendo assim, as mudanças econômicas e sociais que vão sendo introduzidas e que alteraram completamente o sistema de propriedade e de produção característicos da Antiguidade principalmente na Europa Ocidental.

Essas mudanças acabam revelando um novo sistema econômico, político e social que veio a se chamar Feudalismo. O Feudalismo não coincide com o início da Idade Média (século V d.C.), porque este sistema começa a ser delineado alguns séculos antes do início dessa etapa histórica (mais precisamente, durante o início do século IV), consolidando-se definitivamente ao término do Império Carolíngio, no século IX d.C . Os nobres romanos começaram a se afastar das cidades levando consigo camponeses (com medo de serem saqueados ou escravizados). Já na Idade Média, com vários povos bárbaros dominando a Europa Medieval, foi impossível unirem-se entre si e entre os descendentes de nobres romanos, que eram donos de pequenos agrupamentos de terra. E com as reformas culturais ocorridas nesse meio-tempo, começou a surgir uma nova organização econômica e política: o feudalismo.

feudo

A crise do feudalismo foi somente no século XV, aconteceu por uma série de motivos, houve um aumento da circulação de moedas, principalmente nas cidades. Este fator desarticulou o sistema de trocas de mercadorias, característica principal do feudalismo, além do desenvolvimento dos centros urbanos, provocando um efeito contrário, o êxodo rural. Com isso, muitos servos passaram a comprar sua liberdade ou fugir, atraídos por oportunidades de trabalho nos centros urbanos. Então houve o surgimento da burguesia, nova classe social que dominava o comércio e que possuia alto poder econômico. Esta classe social foi, aos poucos, tirando o poder dos senhores feudais. Daí vieram também os aumentos nos impostos, favorecidos pelo desenvolvimento comercial, os reis passaram a contratar exércitos profissionais. Este fato desmantelou o sistema de vassalagem, típico do feudalismo. Foi no final do século XV, que o feudalismo ficou mais desarticulado e enfraquecido. Os senhores feudais perderam seu poder econômico e político. Começando assim à surgir as bases de um novo sistema, o capitalismo.

Vilas muradas

A Sociedade Feudal

A população feudal é principalmente composta de serviçais, plebeus, fazendeiros e artesãos, pessoas que raramente vêem uma moeda de ouro ou prata e adquirem bens, basicamente, por meio de escambo, e quando recebem em moedas, geralmente é em moedas de prata. Moedas são raras, ou, pelo menos, deveriam ser. Apenas os mais ricos e poderosos, nas maiores cidades, dos reinos mais influentes teriam uma economia baseada em moedas. O período medieval caracterizou-se pelo feudalismo, isto é, estrutura econômica, social, política e cultural que se edificou progressivamente na Europa centro-ocidental em substituição à estrutura escravista da Antiguidade romana.

Pirâamide Idade Média

O Clero (sacerdotes)

Esta ordem social era composta pelos integrantes da Igreja Católica (padres, bispos, monges, abades e papa). Cabia ao clero, na sociedade feudal, cuidar da vida espiritual de toda sociedade. Embora a função desta ordem fosse rezar, exercia influência política, moral e psicológica na sociedade.

Castelo Lichtenstein, ou Castelo do Conto de Fadas, do século XII, um dos ícones no imaginário da Idade Media, localizado em Baden-Wurttemberg, Alemanha.
Castelo Lichtenstein, ou Castelo do Conto de Fadas, do século XII, um dos ícones no imaginário da Idade Media, localizado em Baden-Wurttemberg, Alemanha.
Os Nobres (guerreiros)

Ordem composta por senhores feudais e cavaleiros (guerreiros). A função dos integrantes desta ordem era garantir a proteção da sociedade, utilizando de recursos militares. Concentravam poder em função da propriedade de terras, além de exercer o controle da justiça (no caso dos senhores feudais). Moravam em castelos, com suas famílias, que eram verdadeiras fortalezas militares.

As pessoas ricas viviam em casas mais confortáveis. Os pisos eram pavimentados, e as paredes podiam ter tapeçarias. Janelas maiores o quanto fosse possível, o que significava que havia mais luz. No entanto, estas casas eram frequentemente bem arejadas.Fortalezas de aparências

Sua dieta continha muito mais carne, às vezes até demais, o que poderia levar a problemas de saúde. Em suas cozinhas, eles tinham grandes lareiras, onde animais de grande porte podiam ser assados no espeto. Os animais selvagens eram os favoritos nas mesas dos Lordes, onde lebres, cisnes e melros eram comidos.

Os Camponeses (servos)
Camponeses

Trabalhadores rurais, andarilhos, alfaiates, comerciantes, oficiais mecânicos, ferreiros, ourives e servos compunham essa classe, que era a maior. Um servo era designado a ser servo para toda a sua vida, eram submetidos a trabalhar incansavelmente para os seus senhores e não podiam fazer nada para mudar essa condição, que era semelhante a escravatura.

A maioria da população feudal tinha pouca liberdade, e muitas obrigações. Poucos foram autorizados a viajar, enquanto a maioria dos camponeses foram obrigados a ficar na terra de seu senhor. As pessoas comuns tinham pequenas casas com teto de palha, que era pequena, úmida e escura com poucas janelas. A maioria das pessoas tinham apenas um ou dois quartos em suas casas, e todos eles dormiam no mesmo quarto. Os pisos estavam cheios de junco ou palha, sem tapetes.

As pessoas comiam comida simples, especialmente pão, legumes, leite e queijo. A carne aparecia na mesa ocasionalmente. Carne nem sempre de gosto bom, porque, para conservar a carne, os camponeses usavam um monte de sal. Uma refeição comum para as pessoas foi o guisado, que era uma espécie de guisado ou sopa espessa de legumes e pedaços de carne.

Os monges

Viviam em comunidade nos mosteiros, dirigidos por um abade. Ocupavam-se em rezar, cultivar a terra, estudar, escrever e copiar livros, dar alimento aos pobres e guarida aos viajantes, tratar dos doentes e cuidar de suas adegas e despensas. Dedicavam sua vida a Deus e por isso viviam afastados das aldeias e cidades. Orar e trabalhar eram as normas essenciais da vida monástica.

A Vassalagem

Vassalagem: Juramento de fidelidade ao rei.
Vassalagem: Juramento de fidelidade ao rei.

Era uma relação de poder. Pela vassalagem, dois nobres estabeleciam uma relação pessoal e direta, que implicava obrigações e direitos recíprocos. A cerimônia que formalizava a relação possuía três atos: a homenagem, o juramento de fidelidade e a investidura. O vassalo era o nobre que se submetia a outro por meio do juramento de fidelidade, prestando-lhe ajuda militar e financeira. O suserano era o nobre que concedia o feudo.

O Feudo e seus divisões
O Feudo e seus divisões

A principal unidade econômica era o feudo, que se dividia em três partes: a propriedade privada do senhor, chamada de domínio ou manso senhorial, no interior da qual havia geralmente um castelo fortificado; o manso servil, ou seja, a porção de terras agrícolas arrendadas (alugadas) aos camponeses e que era divididos em lotes, chamados de tenências; e o manso comunal, terras coletivas (pastos e bosques) usados tanto pelo senhor como pelos servos.

Cada família de servos tinha a posse de um lote de terras (ou tenência) no feudo para trabalhar. O desenvolvimento técnico na produção econômica feudal foi pequeno, limitando aumentos de produtividade. A agricultura era praticada por meio de técnicas simples. O arado de madeira, puxado por boi, era o equipamento principal. Para não esgotar o solo, usava-se um sistema de rotação trienal. Na imagem acima, podemos ver a rotatividade: Enquanto uma parte da terra está em descanso, uma está sendo preparada para o plantio e outra está no processo de colheita.

A Igreja Católica na Idade Média

Durante a Idade Média, a Igreja Católica experimentou seu momento de maior poder e expressão na sociedade. Toda a vida civil estava regulada pelas observações religiosas.

Igreja Católica

As estações do ano agrícola, as reuniões das assembleias consultivas, o calendário anual eram marcados pelas atividades religiosas.

A vida cotidiana era toda impregnada por pequenos rituais católicos, que demonstravam o grande poder da religião. As doenças epidemias e catástrofes eram geralmente atribuídas ao Diabo, e eram resolvidas por meio de exorcismos, sinais da cruz e outros simbolismos católicos. O poder da Igreja diferenciava-se dos demais, uma vez que além do território sob sua jurisdição política ela tinha o poder espiritual sobre quase todo o território europeu.

Esse domínio, construído durante a Idade Média, consistia em estar presente na vida das diferentes camadas sociais. Era a Igreja que representava, pela sua função religiosa, a segurança para a população medieval atemorizada com a morte e, sobretudo, com o que pudesse ocorrer depois da morte. Essa influência, a princípio puramente espiritual, passa a estender-se para o político, na medida em que eram os papas que coroavam os imperadores, nas cerimônias de sagração.

Igreja Católica

Entre os nobres a Igreja atuava como fornecedora de justificativas religiosas, para as guerras contra os infiéis – as Guerras Santas. Entre os movimentos mais conhecidos da Idade Média, orientados pela Igreja, estão as Cruzadas, que contaram com o apoio dos dirigentes políticos das monarquias feudais, para retomar a Terra Santa , então em poder dos turcos.Entretanto os interesses econômicos e sociais rapidamente superaram os motivos religiosos, que em um primeiro momento serviram de incentivo aos movimentos cruzadísticos.

No plano intelectual a Igreja Católica foi durante o período medieval, a guardiã do conhecimento sistematizado, uma vez que as bibliotecas ficavam em seu poder.

O clero era constituído na sua maioria por indivíduos ricos, que nem sempre possuíam vocação religiosa para praticarem a fé. A religião nesse momento também era vista como uma forma de enriquecimento fácil às custas de tributos dos camponeses e artesãos.

Ao longo de todo o período medieval a Igreja contou com diversos movimentos que tentaram reformar a Instituição nascidos no seio da própria Igreja. A Igreja enfrentou também grande número de guerras, movidas por reis, príncipes e senhores feudais, muitas vezes com o apoio da população, que lutavam contra o abusivo poder dos papas. Entretanto a Igreja saiu vitoriosa na maioria das vezes, mantendo sua unidade, até meados do século XVI, quando ocorreu o movimento da Reforma Protestante.

reforma protestante

Durante a Idade Média as relações da Igreja com os banqueiros encontraram um único obstáculo: os juros. Entendia-se que um usurário, ao exigir uma importância maior e proporcional à duração do empréstimo, estava vendendo algo que pertencia somente a Deus (o tempo). Este problema, entretanto acabou sendo contornado. E enquanto se fazia uma cuidadosa revisão dos dogmas da religião, aos “vendedores do tempo” restava a possibilidade, aplicada a todos os demais pecados, de arrepender-se e doar aos pobres e à própria Igreja parte da riqueza acumulada durante toda a vida.

Marco Polo
Marco Polo foi um mercador, embaixador e explorador.

O homem medieval vivia aprisionado em seu pequeno mundo. As informações sobre a Ásia e a África eram muito esparsas e contraditórias. A América não fazia parte dos mapas. Os mercadores eram em geral homens melhor informados do que o restante da população. Estes procuravam compreender as diferenças das civilizações e, ao mesmo tempo, integrá-las dentro da ótica do cristianismo. Com Marco Polo, viajante do século XII, podemos perceber duas grandes questões: as dificuldades em se definir a geografia do globo e o peso ético que a narrativa bíblica impunha aos seus relatos.

O que mais surpreendia o ouvinte medieval, era a exuberância das descrições sobre reinos distantes e não a geografia dos continentes. Cada região era descrita através de cenas cujo impacto fixava uma determinada imagem:

O rei anda também todo nu, como os outros, mas cobre a sua virilidade com um pano mais rico, e usa um colar de ouro, que é uma fiada de safiras, rubis, esmeraldas e outras pedras preciosas. Também usa posto no pescoço um cordão com 104 pérolas grandíssimas e rubis de grande valor. E são 104 pérolas e pedras, porque tem que dizer, todas as manhãs e todas as noites, 104 preces ou invocações aos seus ídolos. É que lhe mandam a fé e os costumes; assim o fizeram seus antepassados, e assim o faz ele, e é por isso que usa um tal colar[…] Contei-vos tudo isto, mas no entanto ainda me fica muita coisa maravilhosa por dizer. Sabei que este rei tem quinhentas mulheres legítimas […] (O livro das maravilhas).

Numa época em que ouvir valia mais do que ver, os olhos enxergavam primeiro o que se ouvia dizer; tudo quanto se via era filtrado pelos relatos de viagens fantásticas de terras longínquas, de homens monstruosos que habitavam os confins do mundo conhecido. Aos poucos, talvez com traumatismos, as evidências da novidade cresceriam sobre o acervo milenar do imaginário europeu, destruindo sonhos e fantasias, somando-se a outros elementos desencantadores do mundo feudal.

O que era a realidade da terra para o homem do século XIV? Acreditava-se na existência do Equador, dos trópicos, de cinco zonas climáticas, três continentes, três mares, doze ventos. A Europa setentrional e o Atlântico já se confundiam com o imaginário, sendo descritos quase como ficção. Mais tarde a expansão ultramarina desenrolou-se pois sob forte influência do imaginário europeu tanto na vertente positiva quanto na negativa.

A expansão nesse momento é multifacetada, ou seja, meio real, meio fantástica, meio comercial, meio mental, ligado à própria estrutura do comércio do Ocidente medieval, importador de produtos preciosos longínquos, com suas ressonâncias psicológicas.

Feudalismo na Fantasia

Como vimos acima, uma sociedade feudal se caracteriza pela divisão do poder entre diversos Senhores Feudais, cujos domínios não se limitavam apenas à cidade murada nas quais viviam, mas sim a todo um território, não bem definido, ao redor de sua cidade. Estes senhores possuíam em comum, muitas vezes, laços sanguíneos e igual quantidade de poder. O que diferenciava um senhor do outro eram suas posses, suas riquezas e a tradição de sua linhagem. Neste conceito de linhagem e riqueza é que se sobressaía a figura do rei, senhor feudal como todos os outros, porém possuía respeito e status suficiente para ser chamado como tal. O papel do rei no mundo feudal é muito menor do que se imagina, uma vez que, embora seus domínios pudessem ser chamados de capital, as noções de unidade política e país não correspondiam às nossas atuais.

O rei era apenas aquele em torno do qual os outros senhores feudais se reuniam para a tomada de decisões, para o julgamento de questões envolvendo dois feudos diferentes. Assim, o rei exercia o papel de juiz, decidindo por uma opção que desse equilíbrio à região. Um reino medieval nada mais é do que um conjunto de feudos que se relacionavam (e muitas vezes se uniam) por causa das proximidades culturais existentes entre eles tais como a língua, os costumes, a descendência e etc.

Castelo

Quando surgia um conflito de proporções continentais o rei era também aquele que, junto com outros senhores feudais, podia formar pequenos exércitos capazes de defender o território que representava seu reino.

Existe uma certa dificuldade de entender esses conceitos e aplicá-los no contexto histórico numa ambientação de fantasia, como ocorre em alguns RPGs e em muitos games.

Quando comecei a estudar a fundo a maneira como se organizava o estado na idade média e então comparei seus conceitos com as estruturas narradas nos manuais de Greyhawk quase cheguei a crer que a conotação Fantasia Medieval devesse ser substituída por Fantasia Clássica ou Fantasia Moderna. Somente depois de alguma reflexão é que constatei meu engano. Quando Gary Gygax escreveu Greyhawk não expôs o lado político e social em sua obra, não por negligência, mas na qualidade de historiador, sua atenção fora voltada para o desenrolar das tramas que conduziram os povos do cenário, através de séculos, até a formação dos estados apresentados no Guide to the World of Greyhawk. Gygax, no entanto, não explicou como aquela formação demonstrada no guia deveria ser encarada – talvez por presumir, inconscientemente, que todos entenderiam, como ele, que aqueles reinos não passavam de feudos como os europeus.

daneveland_furyondy

Tomando os principais manuais de Greyhawk (Guide to the World of Greyhawk, From the Ashes e Living Greyhawk Gazetteer) podemos perceber que as maiorias dos países são classificados como monarquias feudais, daí a importância de entender o que são os feudos, e por isso escrevi este artigo. Há uma inerente tendência de jogadores e mestres encararem o rei como aquela figura centralizadora de poder, de palavra e decisões inquestionáveis. Esta imagem reflete a disposição de um rei absolutista, personagem de uma monarquia absolutista e não de uma monarquia feudal.

Num país de governo feudal o rei é, conforme citado no início do artigo, mais um dentre vários senhores feudais e sua importância se dá apenas porque ele, através de manobras políticas, conseguir reunir estes senhores para governar o reino. Um exemplo prático do cenário é Furyondy, onde cada família tem um representante (os senhores feudais) e um território sob seu domínio (as províncias). Belvor IV, rei de Furyondy, é apenas o representante de uma dessas famílias, e governa a província de Fairwain, cuja capital é Chendl. A importância de Belvor, no entanto, se dá porque sua família está intimamente ligada à formação do reino e porque sua província é das mais ricas e bem estruturadas da região.

Sua posição como rei não é questionada, posto que o rei Belvor é um homem justo e bondoso, mas suas decisões são muitas vezes postas em cheque por outros Senhores Feudais que discordam sobre qual a melhor maneira de defender o reino da ameaça de vizinhos como o Império de Iuz. Ou seja, Belvor não é intocável, não é absolutista e por isso não condiz com a imagem de um rei como Luís XIV (rei absolutista Francês), condiz muito mais com a imagem do Rei Artur, figura folclórica, sob cuja bandeira diversos senhores se uniram para a proteção das terras que julgavam serem suas por direito. Para um paradigma real, Belvor está muito mais para um Carlos Magno do que para um Henrique VIII (que fortaleceu a realeza absolutista na Inglaterra).

Significa dizer, portanto, que qualquer senhor feudal pode simplesmente se negar a colaborar com qualquer plano do rei sem que haja retaliação – salvo por um possível enfraquecimento político de sua província. Ainda tomando como exemplo Furyondy, Belvor IV por diversas vezes encontrou dificuldades para convencer os senhores feudais sulistas em formar exércitos para enfrentar a ameaça que Iuz representava, posto que os sulistas estavam insensíveis à iminência de um ataque, pois suas províncias são distantes das fronteiras ameaçadas.

O absolutismo e o movimento cultural que lhe antecede, o renascentismo, só surgirá alguns séculos depois da idade média, finalizando com o que os historiadores chamam de antigo regime. Em um cenário absolutista, situações como a supra citada não ocorreriam; a palavra do rei era ordem e os que dela discordassem eram considerados subversivos e eram exilados ou até mortos, outros nobres já estariam deveras satisfeitos com suas posições políticas – concedidas pelo rei – e não se oporiam e a burguesia, embora financeiramente saudável, não gozava de qualquer poder político para questionar as decisões da corte.

Alguns conceitos hoje arraigados em nossa cultura também não eram parte do pensamento feudal, pois foram desenvolvidos por pensadores iluministas e positivistas séculos depois. Um destes conceitos e, talvez, o mais importante para nós é o conceito de nação. O termo Nação, na Idade Média, era empregado pela ideia de grupo ou a ideia de comunidade política de um local, por exemplo, podia-se ouvir a expressão nação européia, mesmo a Europa não sendo um país. Nação, na Idade Média, deve ser entendida, portanto, como um conjunto de pessoas unidas por laços eternos e naturais, como a língua, história, costumes e até mesmo de etnias, ou seja, laços que de fato sejam existentes ab immemorabili (desde tempos imemoriais). No mundo feudal não existia o comportamento nacional, através do qual se forma a ideologia moderna de nação.

Ou seja, não havia o sentimento de fidelidade às entidades como França, Espanha e etc. Mas então Furyondy, Nyrond e Keoland, por exemplo, não são nações? Na realidade podemos classificá-los como nações inconscientes, cujas tendências históricas remeteriam ao nascimento de nações modernas. O que importa é que no contexto feudal não havia a fidelidade consciente, havia entretanto um sentimento moral que unia os indivíduos em torno de seus senhores para a manutenção do bem estar.

O conceito de Estado é outro que muitas vezes fica confundido, mas que é de importância para todos que desejam aprofundar mais seu entendimento de feudalismo. O termo estado surgiu para indicar qualquer ordenamento político europeu a partir do século XIII. Mais tarde o termo ganhou mais significância com a gradual centralização do poder e, com a unidade do estado, este conceito pode ser mais bem assimilado. Para resumir e evitar, ainda que talvez tardiamente, que o texto presente se torne enfadonho, passemos logo aos planos que formam o conceito de estado. As extensões físicas, suficientes para permitir a relação entre grupos vizinhos – como os diferentes feudos e o momento institucional, espelhado na organização do poder são os dois fatores combinados que formam o estado, e por isso podemos dizer que no mundo medieval existiam os estados, mas nem sempre nações.

Por fim é importante salientar que as pessoas, durante a idade média, não se uniam para batalhas por que seu país, enquanto nações, estavam sendo ameaçadas. As pessoas lutavam pelo ideal Cristão; e antes de ser francês era mais importante ser católico. Então não creia que os povos de Furyondy e Nyrond batalharam contra Iuz e Ivid para que as bandeiras de seus países tremulassem incólumes, soberanas. Lutaram sim, mas pela manutenção do que acreditavam ser o melhor para a humanidade, lutaram pela bondade e, no contexto de Greyhawk, são as divindades como Heironeous, Rao e etc. que fazem o papel do Cristianismo.

Fontes:
http://www.casadehistoria.com.br/
http://www.vestibular1.com.br/
http://www.estudopratico.com.br/
http://www.klickeducacao.com.br/
http://act14-anjovida.blogspot.com.br/
http://www.novahistorianet.blogspot.com.br/
http://portaleconomia.com.br/moedas/dinheironomundo.shtml

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Lagame C (2015-06-22 17:47:49). Feudalismo nos Mundos de Fantasia. Criação de Mundos. Retrieved: Jun 22, 2018, from https://www.criacaodemundos.com.br/feudalismo-nos-mundos-de-fantasia/
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Cristiano Lagame
Cristiano Lagame formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Universidade Carioca do Rio de Janeiro em 2013. É Carioca, mas viveu na cidade de Teresópolis por sete anos, onde trabalhou como Técnico de Manutenção de Micros, Webdesigner e Programador. Depois retornou para o Rio, onde começou seus estudos para tornar-se Analista de Sistemas, profissão que permanece até o momento.

Está entre um dos incitadores do hobbie RPG no Rio de Janeiro e no Brasil. É criador e moderador de diversos grupos deste hobbie lúdico.

Foi em 1989 que teve contato pela primeira vez com o RPG, e mantendo até hoje o hábito de jogar com seus amigos e parentes ao menos uma vez ao mês de forma saudosa.

Junto com outros membros mantinha o site Spell RPG, um dos primeiros sites deste hobbie. Em 2015 entrou no curso de extensão de Game Design pela Infnet/Pix Studios, foi o que o motivou a criar o site Criação de Mundos.