Como Criar um Anti-Herói Verossímil em Ficção

Numa história, normalmente os protagonistas são os heróis, com a ascensão de alguns protagonistas desprezíveis em dramas televisivos como Breaking Bad, Ozark, True Detective. Notamos facilmente que anti-heróis estão pipocando em todos os lugares, inclusive no cinema, ontem mesmo foi o lançamento do segundo filme do Deadpool (que recomendamos muito). Vamos ensiná-los através deste artigo a criar personagens anti-heróis plausíveis.

Deadpool é um perfeito exemplo de anti-herói.

O que é um Anti-herói?

Trata-se de uma expressão utilizada em oposição ao conceito de herói. A personagem anti-heróica, em contraposição ao protagonista idealizado, caracteriza-se por ser desprovida das qualidades e virtudes geralmente atribuídas à figura ficcional central. Um exemplo de “anti-herói” clássico da literatura brasileira é Macunaíma, de Mário de Andrade. Não por acaso, o romance tem, como subtítulo, a expressão “herói sem nenhum caráter”. Iniciada de modo irônico – “No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite” –, a narrativa apresenta um protagonista híbrido (mistura de branco, negro e índio), cuja frase característica é: “Ai que preguiça!”.

Afinal, porque gostamos do anti-herói?

Todos nós temos certa admiração por vilões e anti-heróis. É quase irracional, característica latente do ser humano. Odiamos amar alguns, amamos odiar outros. Chegamos até a nos identificarmos com eles em diversas situações.

Darth Vader, Hannibal Lecter, Alex Delarge, Dexter Morgan e Nucky Thompson são alguns desses seres que arrebatam nossos corações com suas vidas multifacetadas e, algumas vezes, incompreendidas. A paixão instantânea caminha lado a lado com o desprezo. E há uma explicação para isso. Ou melhor, uma não, três:

A humanização da vilania

Não raro, figuras imperfeitas e sem qualquer vocação heróica, que realizam a justiça por razões pessoais ou meios questionáveis, protagonizam produções aclamadas pelo público. Este tipo de personagem é um recurso precioso numa boa narrativa audiovisual ou literária, uma vez que aproxima o espectador e/ou leitor da trama. O efeito é provocado por intermédio da humanização proposital das causas e perfis dos vilões e anti-heróis, sugerindo situações, aspirações ou pensamentos que todos nós já passamos ou tivemos. Vide Thanos no filme Guerra Infinita.

A relação entre o encanto por bad boys e a psicologia

Segundo Sigmund Freud – o criador da Psicanálise – a nossa psique é dividida em três instâncias que interagem entre si: o id, o ego e o superego.

O ID

O id corresponde ao puro instinto, impulsividade, satisfação pessoal ou solução do problema. Desconhece completamente os limites ou a lógica, isentando-se de responsabilidade e altruísmo.

O Superego

Já o superego vai contra isso, representa os pensamentos éticos e morais internalizados, a recompensa social em seguir regras. Os objetivos principais são inibir impulsos, forçar comportamentos aceitos pela sociedade e nos conduzir à ideia de perfeição, ainda que ela seja inalcançável.

O Ego

Enquanto o ego, basicamente é o que media estas duas instâncias, equilibrando o primitivo e o socialmente correto.

A Relação entre Anti-heróis e Nós

Esse equilíbrio varia de pessoa para pessoa, além de não permanecer o mesmo durante toda nossa vida, ou seja, há momentos em que o id se manifesta mais que o superego e vice-versa, fato que nos leva à nossa próxima pergunta: o que isso tem a ver com o tipo de personagem que gostamos? Tudo!

A personagem é um artifício usado pela nossa mente para trazer instintos à tona de maneira admissível, consequentemente funciona como uma válvula de escape. No caso dos vilões e anti-heróis, que cometem crimes terríveis e atos capciosos, podemos dizer que seriam o espelho do nosso id em maior ou menor escala. Transformar impulsos rejeitados pelos bons costumes num personagem e não ser responsável por isso é o que causa o reconhecimento imediato.

Passamos a aliviar esses desejos irracionais reprimidos na ficção, afinal, ela está distante, não nos traz nenhum prejuízo e nem nos envergonha perante o mundo. E quando a ficção se encarrega de castigar ou levar esses bandidos à redenção, a ligação psíquica aumenta exponencialmente, porque nos incita a crer que transgredir regras é o mesmo que sofrer. Temos o êxtase com as ações sórdidas do vilão (id), para logo entendermos que escolhas erradas podem trazer consequências pesadas no final (superego).

Outra ideia que contribui com perfeição para nossa afeição aos bad boys é que eles são muito mais atraentes e carismáticos que os mocinhos. Geralmente, são amparados por personalidades complexas, tornando-os de longe mais interessantes e curiosos. A atmosfera sexy em volta dessas figuras se torna um elemento irresistível. Indo mais além, existe um elo incontestável entre o fascínio por vilões e anti-heróis e a história do homem. Não à toa, Freud institui a 2ª Teoria das Pulsões em 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial, para tentar explicar a origem da agressividade humana. Esta é a terceira peça do nosso quebra-cabeça.

A principal metáfora ilustrativa sobre sobre as porções consciente e inconsciente da psique – o iceberg.

Séculos de desgraças refletidos numa geração pós-moderna

Numa rápida análise na história da humanidade, é possível perceber um enorme rastro de destruição. Inegavelmente, os séculos 20 e 21 são os principais responsáveis pela maneira como nos comportamos, vivemos e pensamos hoje em dia. O período que compreende o século 20 foi marcado por uma série de eventos significativos e catastróficos, rendendo a ele os carinhosos apelidos “século sangrento” e “era dos extremos”. Você pode não acreditar, mas alguns desses episódios são fatores consideráveis na nossa simpatia pelos vilões e anti-heróis.

Assassinatos em massa, grandes crimes e escândalos, desastres, tragédias naturais, avanços tecnológicos e instauração da era digital, expressivos movimentos de contracultura, consolidação do capitalismo, diferenças ideológicas, guerras e notáveis eventos são alguns acontecimentos que permearam a trajetória do homem até aqui. Testemunhamos o mundo virar de cabeça pra baixo, num intenso processo de transformações drásticas.

Ao encontro de nosso diálogo, a Segunda Guerra Mundial foi o que podemos considerar o pico do século 20. Catapulta para o espantoso ataque atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki pelos EUA, ela dividiu nossa história num claro antes e depois, sem dúvidas. De lá pra cá, viramos metamorfoses ambulantes, indo de cidadãos passivos a revolucionários. Uma sociedade inteira baseada em novos hábitos e vícios (bons e ruins), no consumo desenfreado de produtos descartáveis, na banalização da privacidade e exaltação do individualismo. Para completar, no século seguinte, presenciamos milhares de vidas serem arrancadas de maneira inesperada no atentado às Torres Gêmeas, algo que abalou estruturas políticas e sociais.

“A ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos.” — Rodolfo Viana

Estranho é não se identificar

Não precisamos mais nos simpatizar ou torcer apenas pelo personagem principal numa narrativa, aparentemente – desde que sejam pessoas fascinantes num mundo de altos riscos. Mas criar um anti-herói é uma enorme responsabilidade. Requer um entendimento cuidadoso do tipo de história que está sendo contada, e qual público quero alcançar.

As pessoas gostam de se relacionar com os personagens e acompanhar suas trajetórias, inclusive dos que eles mais odeiam (talvez desses mais ainda) e por isso, o antagonista precisa ter um desejo claro e ardente. Um vilão que é mau apenas por ser mau é apenas uma fachada, uma desculpa para a aventura se desenvolver, e o público percebe isso.

Um personagem bem escrito e com personalidade realmente excepcional pode ajudar a envolver o público, onde eles não se envolveriam de outra forma, mas o maior problema de roteiros mal sucedidos é a dificuldade do público criar empatia e aceitar as motivações do protagonista e dessa forma rejeitam a trama.

É preciso criar rapport com sua platéia, ela tem que se importar de verdade com o que está acontecendo para continuar assistindo. Na maioria das vezes isso requer que se identifiquem com o protagonista ou até mesmo passem a gostar dele durante a trajetória.

“Todos nós somos potenciais vilões. Se formos bastante pressionados, empurrados além de nossas medidas, o nosso sistema de autopreservação assume o comando e nos tornamos capazes da mais terrível vilania”. – Frank Tomas e Ollie Johnson
O protagonista normalmente faz algo altruísta nas primeiras dez páginas de um livro para que possamos nos prender a ele.

Muitos roteiros são deixados de lado nas primeiras páginas com o leitor pensando: “Por que eu iria querer seguir essa pessoa pelas próximas horas?”. Mas gostar do protagonista não é absolutamente necessário, desde que você forneça razões o suficiente para o público ainda se habituar com ele. A maneira mais comum é dando aos protagonistas problemas enormes e/ou muito relacionáveis.

Um dos maiores segredos é humanizar os seus antagonistas a ponto do público sentir que aquilo pode ser real, pelo menos dentro daquele universo. Quanto mais enxergarmos o lado “bom” do vilão, mais nos sentimos incomodados com suas atitudes e instigados a querer acompanhar o desenvolvimento de sua jornada.

A importância de criar bons anti-heróis/vilões caminha junto com a estrutura, pois a narrativa se move através de conflitos.

A regra de ouro é: Quanto mais desprezível for o protagonista, maior e mais relacionáveis seus problemas precisam ser.

 

Cinco Perguntas para fazer ao criar um Vilão/Anti-herói:

1. Que tropos de vilões vou usar?
Ex.: Jogada Xanatos, Mau Samaritano, Vilão Visionário.

2. Que livro / programa de TV / filme / jogo específico estou me inspirando?
Ex.: Deadpool, Filhos da Anarquia, Breaking Bad, Lucifer, Thanos.

3. Qual é o maior defeito do personagem?
Seu desejo absoluto de controle tirânico, porém teme que seu poder seja ilusório e perca todo seu domínio.

4. Como ele pode ser derrotado?
Força bruta: Se você tentar ser mais esperto do que ele, perderá. tente sair politicamente, e você vai perder. Então jogue um raio desintegrador nele. Alternativamente, atraí-o com a promessa de entregar a cidade se ele prometer mantê-la segura com seu poder absoluto. Então atinja-o com um raio quando estiver distraído.

5. Quais metas você deseja alcançar?
Eu gostaria de tornar a cidade segura da invasão etérea por qualquer meio necessário.

Três Exemplos de Anti-heróis:

1. Deadpool


Violento? Sim! Meio insano? Sim! Personalidade carismática? Sim! Deadpool cumpre todos os requisitos de um anti-herói e junta sua própria marca de humor negro que tanto sucesso fez nos cinemas.

O Mercenário Tagarela é um ser à parte dos demais com sua capacidade de falar diretamente com o leitor. É verdade: Deadpool sabe que é um personagem nos quadrinhos, quebrando assim a chamada “quarta parede”.

Deadpool faz o que quer, seja ajudar os vilões ou os heróis e sua regra número 1 é não ter qualquer regra. Ele tem a capacidade de ser alguém decente e já fez muitas boas ações, mas também se juntou aos vilões quando foi conveniente. A sua imprevisibilidade, irreverência e humor o tornam um dos anti-heróis mais amados das HQs.

Para ele não tem problema em matar quem for preciso, desde que seja pago ou consiga umas boas gargalhadas com isso. Deadpool vive insanamente, fruto da sua condição de praticamente imortalidade.

2. Justiceiro

O Justiceiro
Com um nome como Justiceiro, só poderíamos falar de um verdadeiro anti-herói. Frank Castle não só assassina qualquer criminoso que acha que merece a morte, como ele realmente gosta do ato de matar.

Um veterano de guerra cuja família foi assassinada por criminosos, Castle é um homem sem nada a perder. Depois dessa tragédia, Frank se transforma em Justiceiro e decide “limpar” a sua cidade, um fora-da-lei por vez.

Da brutalidade da guerra para o combate nas ruas, o Justiceiro vive permanentemente como um soldado em campo de batalha. Ele não acredita em meias medidas, e os fãs das HQs o adoram porque ele faz o que outros heróis não estão dispostos a fazer.

Popular e polêmico, o Justiceiro é um dos favoritos do público devido a sua personalidade e enredos épicos cheios de violência.

3. Venom

Tom Hardy - Venom
O novo trailer do filme solo do simbionte trouxe enfim um visual assustador. Mas afinal, Venom é herói ou vilão? Apesar de nos quadrinhos ele ser caracterizado como vilão com muito mais frequência, pelo trecho do filme parece que ele terá a abordagem do anti-herói.

Segundo o dicionário, o herói “é aquele que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra. Principal personagem de uma obra literária (poema, romance, peça de teatro, etc.) ou cinematográfica. E vilão como: “Personagem que traz consigo a representação da maldade numa narrativa (filme, novela, série, livro, etc.). Aquele quem tem ações vis, abjetas, buscando prejudicar alguém, desprezível.” Ou seja, unindo as ações, o protagonismo e o que vimos no trailer, podemos arriscar que ele é um anti-herói mesmo.

Na sua origem dos quadrinhos, Venom é união de um simbionte com o jornalista Eddie Brock. O simbionte, por sua vez, nem sempre foi o inimigo do Homem-Aranha ou um uniforme no seu guarda-roupa. Sua origem está associada a um longínquo planeta na galáxia de Andrômeda, chamado Klyntar. Essa raça alienígena de simbiontes que recebem o mesmo nome de seu planeta natal.

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Lagame C (2018-05-17 10:42:21). Como Criar um Anti-Herói Verossímil em Ficção. Criação de Mundos. Retrieved: May 26, 2018, from https://www.criacaodemundos.com.br/como-criar-um-anti-heroi-verossimil-em-ficcao/
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Cristiano Lagame
Cristiano Lagame formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Universidade Carioca do Rio de Janeiro em 2013. É Carioca, mas viveu na cidade de Teresópolis por sete anos, onde trabalhou como Técnico de Manutenção de Micros, Webdesigner e Programador. Depois retornou para o Rio, onde começou seus estudos para tornar-se Analista de Sistemas, profissão que permanece até o momento.

Está entre um dos incitadores do hobbie RPG no Rio de Janeiro e no Brasil. É criador e moderador de diversos grupos deste hobbie lúdico.

Foi em 1989 que teve contato pela primeira vez com o RPG, e mantendo até hoje o hábito de jogar com seus amigos e parentes ao menos uma vez ao mês de forma saudosa.

Junto com outros membros mantinha o site Spell RPG, um dos primeiros sites deste hobbie. Em 2015 entrou no curso de extensão de Game Design pela Infnet/Pix Studios, foi o que o motivou a criar o site Criação de Mundos.